quarta-feira, 20 de junho de 2007

História da semana: O Actor

X é um actor secundário num filme importante. Ser actor secundário tem exigências próprias, que a maioria das pessoas desconhece. Por exemplo: entabular um diálogo pode parecer automático, mas está muito longe disso. Como dizer o que se tem a dizer sem que a nossa fala assuma proporções maiores do que o papel permite? Como parecer inteligente sem o ser, ou mais difícil ainda, como ser inteligente sem o parecer? Como ser interessante sem nada de novo para dizer? Como ser polémico sem ideias próprias?
X sabe como resolver essas e outras questões. Está atento às falas das outras personagens para saber o que dizer a seguir. Fazer brilhar os actores principais é o desígnio do actor secundário. Dar o seu melhor. Estar atento às deixas. Entrar e sair de cena quando lhe fazem sinal. Decorar cuidadosamente as linhas. E sobretudo não importunar ninguém. Sobretudo evitar que alguém possa irritar se consigo, reparar demais ou de menos em si, e fazê-lo eventualmente perder o papel que representa.
X representa o papel de vítima. Mesmo que o não saiba, esse é o papel. E ao contrário do que o que digo te possa levar a pensar, conseguiu esse papel por mérito próprio, e por isso quer aproveitá lo bem. O seu papel consiste em queixar-se e lamentar se. Na verdade, a arte de X é aperfeiçoar o lamento até que o não pareça, em tom de suave recriminação ao mundo. O resto é simples: deixar que os outros actores tomem a dianteira e a primazia, decidam e disponham, peçam e exijam, hesitem e avancem; e depois segui-los.
X não morre de amores pelo papel que lhe coube. Mas foi o papel que lhe coube, e um actor não discute o seu papel – representa-o.
X representa um papel secundário no filme da sua própria vida. Muitos actores não conseguem melhor do que isso, é certo, e alguns nem sequer passam de figurantes. A maioria de entre todos chega ao fim do filme sem conhecer o realizador. X, por exemplo, não o conhece, mas tem desculpa: representar o papel de vítima não justifica conhecer o realizador, não achas?

2 comentários:

Anónimo disse...

É preferível aceitar um papel secundário, do que não aceitar nenhum, pensará o actor X. Pelo menos, terá uma chance de contribuir para o sucesso do actor principal e, com sorte, será reconhecido como um dos elementos fundamentais de toda história. Sabe que o sucesso ou insucesso da história também dependerá dele, com a diferença de que ao actor principal ninguém questiona e o actor X, por seu turno, acaba por se adaptar ao que tem de ser feito. No seu intimo, sempre ambicionará tornar-se actor principal, mas sabe que a caminhada não é feita por uma estrada recta e previsivel. Não penso que o actor X represente um papel de vitima, pois o unico que o coloca nesta posição será o realizador. O actor X poderá nunca conhecê-lo, mas o realizador saberá exactamente que papel lhe atribuir.

Anónimo disse...

X abdica de objectivos, ideais e sentimentos próprios. É mais fácil assim.
Ser o principal protagonista da sua vida dá trabalho e faz sofrer. E ainda por cima, não há mais ninguém para culpar quando o filme não corre bem.
Claro que também é muito mais interessante e pleno de sentido. E com vitórias muito mais saborosas.
Mas isso ele não compreende.

Então para quê conhecer o realizador?
Para correr o risco de sentir o desejo de um papel principal? Nem pensar!