"Duas mãos batem palmas e há um som; então qual é o som de uma mão?” (tradição oral, atribuído a Hakuin Ekaku, 1686-1769, que retomou a tradição koan no Japão).
Não é um livro de kung fu, mas é um livro com muito kung fu, certeiro. Etimologicamente, kung fu quer dizer isso mesmo, eficácia e precisão.
Este é um livro sobre a relação: sobre a relação de cada um com cada outro e consigo próprio e com o mundo. E vive de uma visão desencantada das relações. Repare-se no que escreve na página 103: “E não é isso mesmo a relação? Uma sucessão de desencontros no tempo, que pontua o equívoco de estarmos em comum?”
A partir dessa sucessão de desencontros é que desenvolve as suas 78 parábolas: não para dar soluções, ou o falso consolo de soluções, mas para desfazer alguns equívocos e ajudar a criar, cito também, “relações satisfatórias” (63).
No fundo, perante os desencontros da vida, há dois tipos de livros:
- Os livros que arquitectam uma rede teórica, correndo o risco de se afastarem do vivido.
- Ou os romances, que inscrevem os pequenos e grandes comportamentos, tácticas, estratégias e digressões de que é feita a existência, correndo o risco de demasiada colagem ao vivido.
Nesta obra, Ricardo Vargas resolveu criar um terceiro tipo de livro, combinando a ficção e a teoria. Na ficção convida-nos a viajar, por relatos muitas vezes pessoalizados, outras vezes delicosamente animalizados; aí tratas-nos por tu. A seguir a cada ficção, já nos trata por você, enquadra a leitura da pequena peça ficcional – mas nesses comentários não deixa muitas vezes de também lançar uma pergunta, desestabilizando assim o que parecia território mais seguro.
Acredita que “as palavras transformam a vida”, como diz no prefácio. Mas sabe que com as palavras também habilmente nos enganamos uns aos outros e a nós próprios: com a própria verdade me enganas e me engano. Resta-lhe então lutar contra as “etiquetas arbitrárias” (125) que tantas vezes usamos para arrumarmos o caos da nossa experiência interior. A grande questão é: no lugar dessas etiquetas e dessas falsas certezas, o que fica?
É esse o grande desafio do livro. Desmonta, questiona, instabiliza e não oferece em troca um território firme. A época contemporânea, chamemos-lhe modernidade tardia ou pós-modernidade, será justamente, segundo Vattimo, o afastamento da ideia pacificadora de uma segurança para aceitarmos viver na instabilidade. Mas a filosofia de vida deste livro parece-me ter outra raiz: apesar dos contributos científicos da psicologia, vem sobretudo da tradição oriental.
Conhecem os koan japoneses? Pequenas histórias paradoxais, diálogos, questões, contendo geralmente aspectos que são mais acessíveis à intuição do que ao conhecimento racional. São muito usados no budismo zen como auxílio à meditação e ao despertar espiritual. São sempre surpreendentes, terminam das formas mais inesperadas, muitas vezes com perguntas desarmantes.
Quando publicados no ocidente, muitas vezes cada koan vem acompanhado de um pequeno comentário para orientar na perplexidade. Assim é também a estrutura deste livro, apesar de as parábolas quase sempre virem da nossa própria cultura.
Bertold Brecht, homem que no teatro se inspirou muito na tradição oriental, devia conhecer bem os koan, porque tem um pequeno livro que vos recomendo, as Histórias do Senhor Keuner. É sempre o senhor Keuner que nas mais variadas situações coloca as perguntas que desarmam.
Neste livro não há um senhor Keuner, nem um senhor Vargas: as personagens variam. Ou seja, nem sequer temos o ponto fixo de uma personagem. Tudo é instável.
Livro de auto-ajuda? Sim, talvez, mas a única calma que nos pode dar é a de conseguirmos – se conseguirmos – familiarizar-nos com o instável. Com o unheimlich, com a estranheza inquietante, com o não familiar no próprio seio do familiar.
São pistas, conceitos, conhecimentos, alertas para andarmos melhor no arame. Que é o que a vida é.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
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