sábado, 14 de julho de 2007

História da semana: O Kung Fu

Comecei a treinar Kung Fu com 21 anos, em geral um começo tardio para que se possa alcançar um nível suficientemente bom em competição. Mas esse era o meu objectivo e persisti nos treinos, candidatando-me à equipa de competição. O Mestre observou atentamente os meus treinos de combate e chamou-me para uma conversa. Falou-me dos 4 princípios do condicionamento físico para vencer:
- Uma técnica irrepreensível não basta, é preciso desenvolver além disso os quatro princípios: força, rapidez, flexibilidade e resistência – disse ele. Tu tens pouca flexibilidade, e começaste tarde para a recuperar. Tens problemas nas articulações dos pulsos, que serão sempre um limite à força que possas desenvolver. Embora possas conseguir melhorias nessas duas áreas, nunca te poderás apoiar nelas para ser um campeão. No entanto és rápido, e podes ganhar a resistência adequada se a tua vontade for sólida. Concentra-te em desenvolver as tuas melhores áreas, e poderás vir a ser um bom lutador. Não te foques nos pontos fracos.
A partir desse dia, treinou-me como se eu fosse um peso-pluma. Colocou-me a combater com adversários mais leves, mais ágeis, mais rápidos. Exigiu que tivesse a rapidez deles, somada à resistência que o sofrimento temperou em mim.
Ninguém constrói a casa onde o terreno é pantanoso. Aproveita-se o terreno sólido que haja para nele colocar as fundações. O que por aí dizem de melhorar pontos fracos, de suprir défices, a maior parte das vezes não passa de erro crasso. É preciso saber quando os pontos fracos podem ou não ser melhorados, quando o terreno é sólido ou pantanoso para as fundações que queremos.
Lembro-me quando venci o campeonato nacional e recebi a medalha para a minha categoria de peso, depois de um dia de combates, de eliminatórias progressivas, fome e desgaste. De volta ao banco, sentado, descalcei as luvas e comecei a retirar as ligaduras das mãos, quando o Mestre se aproximou e disse:
- Não tires as ligaduras, vais voltar ao ringue. Vais desafiar o campeão do peso acima do teu para o título. Estive a observar os combates dele e tu consegues vencê-lo. Vais sair daqui com o primeiro lugar nas duas categorias.
Olhei para o adversário de quem ele falava, com dez quilos a mais do que eu, dez quilos de força extra, acima da minha, e pensei nas frágeis articulações dos pulsos com que nasci, lamentando-me por isso. Respondi:
- Mestre, se ele me acertar um murro que seja põe-me KO!
Ele sorriu e disse:
- Eu sei. É exactamente por isso que não vais deixar que ele te acerte, não é?

3 comentários:

Anónimo disse...

Auto-conhecimento. Concentração no desenvolvimento de pontos fortes. Articulação de forças e fraquezas do próprio com as do adversário.
A história "O Kung Fu" fala-nos de aspectos fundamentais para o desempenho em competição.

Mas "O Kung Fu" é também uma história que faz pensar em desenvolvimento de talento.
Se procurármos apenas a melhoria dos pontos fracos e a redução dos erros, assumindo os pontos fortes como "dados adquiridos", qual o resultado que esperamos obter ao fim de algum tempo? Um desempenho de alto nível? Ou simplesmente um desempenho mais adequado?

Elementar...!
Mas nem sempre nos lembramos disto nas nossas vidas pessoais e profissionais.

Anónimo disse...

é preciso se ter o MESTRE.

Maria disse...

Os pontos fortes não são por si mesmos garantias de sucesso, são apenas um reforço de confiança. Os pontos fracos são uma consciencia, mas não são um obstáculo invencível. Quantas vezes os pontos fortes se tornam fracos e os fracos se tornam o melhor aliado? Ter consciencia da presença de uns e de outros, é um caminho que sempre nos levará para além do que concebemos serem os nossos limites.