terça-feira, 24 de julho de 2007

História da semana: O Presente

Quando te imaginas daqui a dez anos o que vês? Uma versão melhorada do que és hoje; uma projecção do passado para o futuro. Na melhor das hipóteses verás os objectivos da pessoa que eras concretizados, os sonhos da pessoa que foste cumpridos. Reconhece: queres que o presente não te afecte; queres que o teu pequeno eu atravesse incólume o tempo, vindo do passado, e se projecte num futuro distante; queres não ser alterado. A par disto manténs a pretensão de viver no presente e aproveitar as suas oportunidades. Como vais resolver o paradoxo?

sábado, 14 de julho de 2007

História da semana: O Kung Fu

Comecei a treinar Kung Fu com 21 anos, em geral um começo tardio para que se possa alcançar um nível suficientemente bom em competição. Mas esse era o meu objectivo e persisti nos treinos, candidatando-me à equipa de competição. O Mestre observou atentamente os meus treinos de combate e chamou-me para uma conversa. Falou-me dos 4 princípios do condicionamento físico para vencer:
- Uma técnica irrepreensível não basta, é preciso desenvolver além disso os quatro princípios: força, rapidez, flexibilidade e resistência – disse ele. Tu tens pouca flexibilidade, e começaste tarde para a recuperar. Tens problemas nas articulações dos pulsos, que serão sempre um limite à força que possas desenvolver. Embora possas conseguir melhorias nessas duas áreas, nunca te poderás apoiar nelas para ser um campeão. No entanto és rápido, e podes ganhar a resistência adequada se a tua vontade for sólida. Concentra-te em desenvolver as tuas melhores áreas, e poderás vir a ser um bom lutador. Não te foques nos pontos fracos.
A partir desse dia, treinou-me como se eu fosse um peso-pluma. Colocou-me a combater com adversários mais leves, mais ágeis, mais rápidos. Exigiu que tivesse a rapidez deles, somada à resistência que o sofrimento temperou em mim.
Ninguém constrói a casa onde o terreno é pantanoso. Aproveita-se o terreno sólido que haja para nele colocar as fundações. O que por aí dizem de melhorar pontos fracos, de suprir défices, a maior parte das vezes não passa de erro crasso. É preciso saber quando os pontos fracos podem ou não ser melhorados, quando o terreno é sólido ou pantanoso para as fundações que queremos.
Lembro-me quando venci o campeonato nacional e recebi a medalha para a minha categoria de peso, depois de um dia de combates, de eliminatórias progressivas, fome e desgaste. De volta ao banco, sentado, descalcei as luvas e comecei a retirar as ligaduras das mãos, quando o Mestre se aproximou e disse:
- Não tires as ligaduras, vais voltar ao ringue. Vais desafiar o campeão do peso acima do teu para o título. Estive a observar os combates dele e tu consegues vencê-lo. Vais sair daqui com o primeiro lugar nas duas categorias.
Olhei para o adversário de quem ele falava, com dez quilos a mais do que eu, dez quilos de força extra, acima da minha, e pensei nas frágeis articulações dos pulsos com que nasci, lamentando-me por isso. Respondi:
- Mestre, se ele me acertar um murro que seja põe-me KO!
Ele sorriu e disse:
- Eu sei. É exactamente por isso que não vais deixar que ele te acerte, não é?

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Nelson Mandela's address to the nation

"Our deepest fear is not that we are inadequate. Our deepest fear is that we are powerful beyond measure. It is our light, not our darkness that most frightens us. We ask ourselves, who am I to be brilliant, gorgeous, talented, fabulous? Actually, who are you not to be?

Your playing small does not serve the world. There is nothing enlightened about shrinking so that other people won’t feel insecure around you. It is not just in some of us, it is in everyone.

As we let our light shine we unconsciously give other people permission to do the same. As we are liberated from our own fear, our presence automatically liberates others. "

Há vários aspectos que me fascinam nesta comunicação de Nelson Mandela.

Desde logo o nível de entendimento da natureza humana que demonstra. Não há nada banal neste texto, nenhum lugar comum. Ele dirige a sua análise laminar ao medo inconsciente que nos impede de realizar o que de melhor temos em nós, e simultaneamente à nutrição que esse medo recebe das expectativas alheias, da inveja e insegurança das pessoas que pensam pequeno e que por isso gostariam que todos fossem menores que elas.

Mandela aponta o caminho da libertação como um caminho de escolha individual e de criação progressiva de um contexto colectivo propício à realização do que de melhor existe em nós, através do exemplo mútuo. A regra do jogo é: para que tu te possas libertar eu devo libertar-me. Não são os outros que nos impedem de crescer. É a interpretação que fazemos dos seus medos atávicos, da sua mesquinhez, que apaga a nossa luz interior. E essa interpretação advém exactamente de partilharmos os mesmos medos atávicos, aprendidos em comum.

Mas há algo que me surpreende ainda mais neste texto. É ele fazer parte de um discurso à nação. É um acto de subversão do Nelson Mandela homem-livre sem papel ou estatuto face ao Nelson Mandela presidente. É uma usurpação do direito de antena do político feita pelo Homem que se preocupa, que reflecte, que sofreu e perdoou ao carcereiro. E que aproveita esse tempo de antena para oferecer algo a quem o escuta.

Dá que pensar quando um presidente da república assume este nível de comunicação com os seus cidadãos. É pena que políticos deste calibre não se arranjem em qualquer país.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

História da semana: A Informação

O castor fazia um dique quando o corvo apareceu.
- Como fazes o dique, castor? – Questionou o corvo
- Com gravetos entrelaçados e lama, da forma como os diques são feitos. Sigo uma ciência exacta, na qual se pondera a curvatura ideal, os melhores ramos, e o ponto certo do rio, empiricamente desenvolvida ao longo de gerações – respondeu o castor.
- Imagina que seguindo o teu conhecimento o dique funciona na perfeição. Como chamarias a esse evento?
- Uma confirmação – respondeu o castor.
- E agora imagina que, mesmo seguindo à risca esses preceitos, o dique cede à pressão da água. Como chamarias a esse evento?
- Uma surpresa – disse.
- Então sabes tudo o que há para saber sobre informação e como encontrá-la – continuou o corvo. Se assim distinguires todos os eventos da tua vida, o que podes aprender?

Paulo Filipe Monteiro apresentou "A Vida Não Dá Jeito" dia 2 de Julho na FNAC

"Duas mãos batem palmas e há um som; então qual é o som de uma mão?” (tradição oral, atribuído a Hakuin Ekaku, 1686-1769, que retomou a tradição koan no Japão).

Não é um livro de kung fu, mas é um livro com muito kung fu, certeiro. Etimologicamente, kung fu quer dizer isso mesmo, eficácia e precisão.

Este é um livro sobre a relação: sobre a relação de cada um com cada outro e consigo próprio e com o mundo. E vive de uma visão desencantada das relações. Repare-se no que escreve na página 103: “E não é isso mesmo a relação? Uma sucessão de desencontros no tempo, que pontua o equívoco de estarmos em comum?”

A partir dessa sucessão de desencontros é que desenvolve as suas 78 parábolas: não para dar soluções, ou o falso consolo de soluções, mas para desfazer alguns equívocos e ajudar a criar, cito também, “relações satisfatórias” (63).

No fundo, perante os desencontros da vida, há dois tipos de livros:
- Os livros que arquitectam uma rede teórica, correndo o risco de se afastarem do vivido.
- Ou os romances, que inscrevem os pequenos e grandes comportamentos, tácticas, estratégias e digressões de que é feita a existência, correndo o risco de demasiada colagem ao vivido.

Nesta obra, Ricardo Vargas resolveu criar um terceiro tipo de livro, combinando a ficção e a teoria. Na ficção convida-nos a viajar, por relatos muitas vezes pessoalizados, outras vezes delicosamente animalizados; aí tratas-nos por tu. A seguir a cada ficção, já nos trata por você, enquadra a leitura da pequena peça ficcional – mas nesses comentários não deixa muitas vezes de também lançar uma pergunta, desestabilizando assim o que parecia território mais seguro.

Acredita que “as palavras transformam a vida”, como diz no prefácio. Mas sabe que com as palavras também habilmente nos enganamos uns aos outros e a nós próprios: com a própria verdade me enganas e me engano. Resta-lhe então lutar contra as “etiquetas arbitrárias” (125) que tantas vezes usamos para arrumarmos o caos da nossa experiência interior. A grande questão é: no lugar dessas etiquetas e dessas falsas certezas, o que fica?

É esse o grande desafio do livro. Desmonta, questiona, instabiliza e não oferece em troca um território firme. A época contemporânea, chamemos-lhe modernidade tardia ou pós-modernidade, será justamente, segundo Vattimo, o afastamento da ideia pacificadora de uma segurança para aceitarmos viver na instabilidade. Mas a filosofia de vida deste livro parece-me ter outra raiz: apesar dos contributos científicos da psicologia, vem sobretudo da tradição oriental.

Conhecem os koan japoneses? Pequenas histórias paradoxais, diálogos, questões, contendo geralmente aspectos que são mais acessíveis à intuição do que ao conhecimento racional. São muito usados no budismo zen como auxílio à meditação e ao despertar espiritual. São sempre surpreendentes, terminam das formas mais inesperadas, muitas vezes com perguntas desarmantes.

Quando publicados no ocidente, muitas vezes cada koan vem acompanhado de um pequeno comentário para orientar na perplexidade. Assim é também a estrutura deste livro, apesar de as parábolas quase sempre virem da nossa própria cultura.

Bertold Brecht, homem que no teatro se inspirou muito na tradição oriental, devia conhecer bem os koan, porque tem um pequeno livro que vos recomendo, as Histórias do Senhor Keuner. É sempre o senhor Keuner que nas mais variadas situações coloca as perguntas que desarmam.

Neste livro não há um senhor Keuner, nem um senhor Vargas: as personagens variam. Ou seja, nem sequer temos o ponto fixo de uma personagem. Tudo é instável.
Livro de auto-ajuda? Sim, talvez, mas a única calma que nos pode dar é a de conseguirmos – se conseguirmos – familiarizar-nos com o instável. Com o unheimlich, com a estranheza inquietante, com o não familiar no próprio seio do familiar.

São pistas, conceitos, conhecimentos, alertas para andarmos melhor no arame. Que é o que a vida é.

domingo, 1 de julho de 2007

História da semana: O Caminho

Duas pessoas fazem um caminho.
Duas pessoas fazem um caminho lado a lado.
Ou melhor, duas pessoas fazem cada uma o seu caminho lado a lado.
Embora pisando o mesmo caminho e seguindo na mesma direcção, duas pessoas fazem cada uma o seu caminho, lado a lado.
Com passos diferentes, à medida do cansaço de cada perna, com olhos diferentes, na sedução das cores de cada paisagem, com ouvidos diferentes, limitados ao ruído de cada eco, com corações diferentes, do tamanho das emoções guardadas, duas pessoas fazem um caminho lado a lado, acreditando fazer o mesmo caminho juntas.
Porque acreditariam duas pessoas que fazem juntas o caminho que fazem lado a lado?
Por desconhecerem a natureza dos passos próprios? Por não medirem o tamanho do coração em cada emoção? Por avançarem despreocupadas com a paisagem nos olhos do outro?
Se duas pessoas fazem, cada uma, o seu caminho lado a lado, percorrendo um caminho juntas, isso só pode ser porque o caminho que cada uma percorre é único, e se desfaz na poeira dos passos depois de pisado.
Com que parte do corpo é percorrido o verdadeiro caminho? O caminho que os passos pisam é mais certo que o caminho que os olhos vêem? O caminho que o coração sente é mais verdadeiro que o caminho que os ouvidos encontram?
Duas pessoas fazem um caminho lado a lado, percorrendo cada uma o seu caminho na cabeça.
Uma da outra.
Lado a lado.
Duas pessoas fazem cada uma o seu caminho na cabeça, seguindo um caminho lado a lado.
Quem acreditas que segue o caminho contigo?